Estive em Mataró por um dia e, dentre as habituais visitas a igrejas e bonitas construções que são comuns ao itinerário europeu, enchi meu dia de visitas a lojas de quadrinhos. Eu sou absolutamente fascinado pela ideia de visitar sebos em um país como a Espanha, sobre o qual eu conheço pouquíssimo a respeito do histórico de publicações em comparação com o que sei do Brasil. Em uma simples olhada pelo que está disponível, são inúmeras as descobertas sobre os gostos daquele povo, o que estava em publicação em cada época, e ainda tem o bônus incrível de poder por preços super camaradas levar algumas dessas peças de história para casa e realizar maiores pesquisas. Hoje, é hora da resenha da minissérie Marvel "El Origen de Máquina de Guerra", nunca publicada separadamente no Brasil e que traz o imenso charme dos quadrinhos noventistas do Homem de Ferro, em uma edição espanhola que me surpreendeu pelo detalhismo.
Abaixo, como transição, uma belíssima igreja que fotografei em Mataró. É a Basílica de Santa Maria de Mataró.
A premissa da série, que apesar de ter sido separadamente publicada em seis edições pela editora espanhola Fórum não passa de um recorte de edições da clássica run do Iron Man, é bastante comum aos quadrinhos americanos. O Homem de Ferro, seguindo eventos de edições anteriores, está a beira da morte e começa os preparativos para o fim de sua vida com toda a engenhosidade que se esperaria de um Tony Stark noventista. Seu amigo Rhodes, que já havia anteriormente utilizado a armadura e não era muito favorável a voltar a atuar como herói, é o escolhido para seguir o legado de Tony após a sua morte, isso obviamente ignorando que não existe morte definitiva em quadrinhos de super herói, e na própria minissérie o Stark já retorna.
Uma de minhas maiores ressalvas com esse tipo de publicação, e que sei que é compartilhada por muitos de meus amigos leitores de mangá, é que a Marvel muitas vezes parece já assumir que o leitor possui um incrível conhecimento sobre seu universo e ainda por cima adora citar eventos de outras publicações, o que deixa o leitor mais esporádico absolutamente confuso. Estava mais preocupado ainda em uma minissérie como essa, que no fim não passa de um recorte de uma série que chegava na época aos 300 números. Mas olha, me surpreendi positivamente, e isso foi graças ao trabalho da Editora Fórum.
Páginas como essa lotam todas as seis edições da publicação. A editora escreveu artigos completos sobre os acontecimentos da revista na época, e esses artigos vão desde contextualização de eventos anteriores até promoções de outras séries, tudo de forma extremamente didática e simples. Não é exagero dizer que o trabalho feito nessas edições aumentou imensamente meu aproveitamento, principalmente por eu não esperar material desse tipo em publicações simples de capa cartão. Munido de contexto e de diversas informações que não me recordava a respeito do mundo Marvel noventista, estava pronto para mergulhar em uma nova aventura!
E que aventura divertida! A saga, mesmo com sua premissa simples e a presença de poucos personagens marcantes, é lotada de bons momentos e de diversão desinibida. Desde flashbacks extensos a respeito da psique de Tony Stark até clássicas lutas com aqueles vilões de quadrinhos ridículos que aprendemos a amar, aqui tem tudo!
A obra ainda busca adentrar vários temas importantes, que no geral circulam em críticas extensas ao capitalismo e ao corporativismo. Penso que essas críticas acabam tendo pouco tempo pra desenvolver e se tornando mais rasas do que deveriam, principalmente pela natureza de uma publicação contínua onde precisamos ter pelo menos um pouquinho de porrada por edição e que não dá pra parar tanto assim para pensar, como poderia acontecer em uma série mais autocontida. De qualquer forma, elas existem e não são nem de longe apagadas dentro do enredo.
O vilão do quadro acima, em específico, faz críticas extremamente ácidas e que bateram muito comigo. É até interessante que o Máquina de Guerra, nosso protagonista, concede ao vilão a maioria de seus pontos e acaba de certa forma colaborando com o mesmo, apesar de reprovar seus métodos. É uma publicação que não tem medo de subverter alguns dos tropos de herói, ao mesmo tempo que se mantém extremamente fiel a eles, o que é fascinante. Apesar de eu ter desejos específicos que não foram cumpridos por essa série, entendo que a maioria deles, como o aprofundamento das críticas, nem sequer estava na proposta, o que me leva à conclusão de que, dentro de seu formato, a origem do máquina de guerra é absolutamente respeitável e divertida.
Os desdobramentos do enredo da minissérie levam a um rompimento entre Tony Stark e seu colega, o que geraria uma publicação solo do Máquina de Guerra, como parte da iniciativa que a Marvel possuía na época de criar versões mais "moralmente cinzas" de seus heróis clássicos. Meu conhecimento a respeito do personagem não passava do que assisti nos filmes e de algumas aparições do mesmo em outros quadrinhos, então, como novo leitor, posso afirmar que a introdução foi primorosa e que inclusive fiquei com muita vontade de conhecer outras aventuras clássicas do Homem de Ferro.
Acredito que vale deixar também uma nota a respeito das cenas de ação, que, apesar de extremamente básicas, o que é uma pena dada a gama de poderes interessantes apresentados, são auxiliadas e em muitos momentos carregadas pela arte sensacional, que brilha em sua estética de época e chama atenção de qualquer leitor atento. É uma pena que no Brasil, até onde sei, esse material está preso nos antigos formatinhos da Abril, enquanto na Espanha recebeu ainda uma edição "Marvel Gold" mais tarde. Sinceramente não sei como é a disponibilidade de quadrinhos americanos online hoje em dia, se isso fosse um texto sobre mangás eu certamente teria mil e uma recomendações sobre como ler e onde encontrar, mas aqui deixo a cargo do leitor decidir se vale a leitura e onde poderá a realizar.
Existiu também sessão de cartas com sugestões dos leitores e interação direta! Que saudades eu tenho dos quadrinhos com sessões de cartas. No Brasil, corro sempre atrás das edições mais antigas de Naruto que tinham uma dessas, super divertida e onde o pessoal publicava até fanart. Sou totalmente advogado de uma cultura onde as publicações deixem de querer ser cópias perfeitas de versões estrangeiras e se entreguem à interação com os leitores locais, que torna tudo extremamente mais rico. Decido deixar isso como mensagem final na resenha, apesar de pouco ter a ver com a história em si. Bem, eu posso, é meu blog!!!
E, finalizo o primeiro texto de fevereiro nessa nota. Agradeço pela leitura e aguardo vocês por aqui em breve!