Queima. E não estou acostumado.
— Até onde vai vir comigo?
Não sei. Não confio, sinto que não posso confiar. É o que aprendi, a não confiar. Se confio, não sei até onde seria capaz de ir. Acho que iria bem longe.
— Vou até onde quiser me levar.
Não é como se eu estivesse com vontade de fazer alguma outra coisa. Os dias têm sido todos iguais, e o clima atual me deprime. Nessa época do ano, os dias são insuportavelmente secos.
Além de tudo, eu estava nervoso. Esqueci minha garrafa d'água em casa, e não consigo me acalmar sem ela. Meu celular estava sem bateria, eu decidi que não ia o carregar naquela noite.
— Sua expressão é deliciosa. Me acompanhe em uma caminhada.
— É a única que tenho.
— Parece ser suficiente.
Quando fico nervoso, minhas pernas ficam bambas. Eu estava sentindo que poderia cair e dar de cara no chão a qualquer momento. O ar fica mais quente, começo a me sentir incapaz de dar o próximo passo. Os cenários que minha mente cria são perturbadores.
— Até que ponto pensa que poderia me ser útil?
Meu ouvido queimou um pouco.
— Até onde for necessário.
Tive que sentar, pois senti que não tinha mais forças.
— Saiba que sou muito exigente. Sendo a melhor, exijo o melhor. Nada menos do que a perfeição me apeteceria, já que é nela que resido. Se te procuro, saiba que não é nem tanto por capricho quanto por vontade genuína de atingir o maior nível de satisfação do qual minha existência é capaz.
Eu não me sentia o melhor, mas gostava muito de mim. Me sentia especial, afinal, qual o sentido de não ser? Se fui colocado nesse mundo e tenho minha consciência própria, tendo apenas essa simples chance de colocar minha energia para fora, como poderia ser comum? O comum é absolutamente amedrontador, por isso, não era comum. Eu era especial.
— E o que você enxerga em mim?
Titubeou.
— Nem sequer lhe enxergo, pois minha visão já está fora do que a mente pode desenhar. Mas te desejo, desejo fortemente. E você me deseja, pois precisa de mim. Sou a melhor possibilidade, sou o mais forte dos mundos.
Olhei em volta, e pensei que me sentia sozinho. Nunca precisei de ninguém, mas precisava de muitas pessoas. Nunca amei ninguém, mas amava muitas pessoas. Nunca desejei ninguém, mas desejava muitas pessoas.
— Até onde você pode me levar?
— Onde quer ir?
— Ao inferno.
O clima escurecia. O dia terminou, e as luzes da cidade traíram minha visão, pois perdi de vista o gatinho preto que estava acompanhando de longe.
— E se eu me arrepender de ir com você?
Fiz uma pergunta genuína para a qual já imaginava a resposta.
— O arrependimento é uma característica de indivíduos fracos. Desconheço esse conceito, pois minhas escolhas são ponderadas de forma precisa. Quando erro, o erro me fortalecerá. Quando acerto, sinceramente, acredito que é o esperado.
— E como pode ser tão perfeita?
— Sou o que você precisa.
Que presença forte. Brilhava. Queimava. Não preciso de mais nada.
— Esse mundo está doente. Hoje, olhei nos olhos de muitos homens, mas nenhum me enxergou. O maior sintoma de loucura que conheço é a chamada "sanidade". Ao inferno com esses charlatões!
Era como eu. Afinal, todas essas pessoas são normais. E eu não quero ser normal, pois sou especial. Sendo especial, estou acima deles, mas me sinto abaixo de mim mesmo.
— Eu caminhei pelos campos pútridos desse lugar. Eles mancham minha presença, porém os consumo, pois essa é minha natureza. A sua natureza te une a mim, pois só eu possuo o que precisa.
— E do que eu preciso?
— De mim.
Me levantei, pois me sentia mais confiante.
— Segure minha mão.
Segurei. E queimei.
Eu adoro queimar.
