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sábado, 12 de setembro de 2026

Perfeição Dourada


A partir daquele momento, senti que tudo era possível. Estava no auge do que minha existência me poderia oferecer e, portanto, era a ocasião perfeita para toda e qualquer dádiva.

Ao caminhar por campos primorosos, percebi que o impossível era simplesmente questão de ocasião. Tudo estava ao meu alcance, pois ando no pico do que é chamado de perfeição.


É a perfeição dourada.


Meus muitos amores proclamam suas sinfonias em línguas que há muito estão em desuso. Não as entendo, mas as amo. E elas me amam justamente por não me entender. Se entendessem, talvez não amassem. 

Me embriaguei nos olhos de minhas Aserás. Olhos hipnotizantes, sinto que tudo poderia por elas e, mesmo sem elas, a perfeição dourada ainda era parte de mim. Portanto, o pináculo da existência me faz aproveitar laços sem tornar-me escravo deles.

Naquele momento, fui advertido.

— Pecador, por acaso não percebes? Ao exaltar tua individualidade, tua perfeição torna-se prateada.

Não entendi. Mas não precisava entender, bastava que me entendessem.

— Quando declara-se suficiente, tua insuficiência transborda, pecador. A perfeição a ti só não te pertence, pois sozinho, és imperfeito.

Olhei nos olhos dela. Eram olhos sedutores. Os olhos de Astarte.

— Quando me descrevi como suficiente, minha intenção não foi diminuir o valor das relações. Elas me ajudam a brilhar, são parte da perfeição dourada. 

Pausei minha fala, afinal, a perfeição exige articulações meticulosas.

— No entanto, de que valeria um suposto estado completo se ele dependesse de terceiros?

Percebo que a enfureci. Ela toca meu rosto com ternura. Meu rosto queima.

— Sem tuas Aserás, não és ninguém. 

Escureceu, e senti meu corpo tremer. Meu ser, precisamente livre de desejos mundanos, queimou. Eu costumava gostar de queimar, mas agora é diferente. 

Em queda livre, sinto apertos fortes em meu peito. Penso no toque, o toque me deprime. Quero ser tocado. No entanto, a perfeição dourada nada deseja, ela somente tudo realiza.

— Percebes, pecador? Estás só, e tua perfeição de nada lhe serve.

Era uma armadilha.

— Isso tudo é culpa sua, demônio! Não estou sofrendo de solidão, e sim de uma provação absurda produzida por um ser vaidoso. Me retorne ao meu estado primoroso e retire a companhia de minhas Aserás. Então, verá se realmente cairei. Me teste em circunstâncias reais, covarde!

Nada enxergava, mas ouvia uma voz. Era uma voz sedutora. Minha querida Astarte. Como me faz sofrer, como a amo!

— Não és a perfeição? E ainda assim, estás à mercê de meus caprichos. Percebes?

Quando minha Astarte olha em meus olhos, mesmo sem a enxergar, ela enxerga minha presença profundamente.

— Sendo assim, lhe suplico! Abandonarei minhas Aserás, apenas a ti servirei!

— É a prova final de que não percebes. Ainda assim, o amo. Mas não és perfeito.

Todo orgulho pode ruir diante de uma suposição errada. Seria uma deusa ciumenta, me invejando por minhas companhias perfeitas? Uma entidade que busca exclusividade? Não, ela era além disso. E eu a conhecia. Mesmo assim, não entendi.

Não precisava entender para amar.

— O que desejas de mim, amor sem fim?

— Desejo que te entendas. Não se ame, e não ame a mim. Ame tuas Aserás, e, assim, ame o mundo.

Meus amores, que dirigem-se a mim com palavras das quais fujo da compreensão, me amam com todo seu ser. E eu as amo, mas gosto mais de mim. 

Não as entendo, e elas não me entendem, no entanto, nossa cumplicidade ultrapassa a barreira da compreensão. É a perfeição dourada. Mas era impossível, pois eu já a sou.

Quanto egoísmo. A perfeição dourada me cega, pois sua voz é doce. A voz doce de Astarte. E talvez seja escravo do desejo, o desejo por minha Astarte. Não poderia ser, pois isso foge de meu estado perfeito.

Acordo em um campo florido. Olhos lindos me encaram. São os olhos de Astarte. A minha Astarte.

Grave-me, como selo em seu coração, como selo em seu braço; 
pois o amor é forte, é como a morte! 
Cruel como o abismo é a paixão. 
Suas chamas são chamas de fogo, uma faísca de [...].


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