Para contrariar as críticas de que esse blog teria supostamente se transformado em
repositório de postagens antigas misturado com um punhado de histórias eruditas e psicodélicas, retorno ao meu formato de comentar sobre as leituras de mangá que finalizei no mês! O autor desses comentários maldosos que praguejam meu subconsciente deveria pagar pelo que faz, pena que nada posso fazer, ele mora no mesmo endereço que eu. As ruas de Almere estão geladas.
Setembro foi um mês de grandes quebras na minha vida pessoal, com a minha mudança definitiva pra Holanda e um mergulho absurdo em leituras para o curso de história que orgulhosamente comecei. No meio disso tudo, de uma forma ou de outra, continuei acompanhando minhas leiturinhas japonesas semanais, e elas continuam me trazendo alegria e satisfação, mesmo com uma tranqueira aqui e ali. O que seria de nós sem as tranqueiras clássicas de cada dia, né?
Acompanhe comigo comentários que vão desde a já manjada Weekly Shounen Jump até um mangá de Heavy Metal excêntrico que foi ceifado tentando conquistar seu lugar no sol.
Kinato's Magic (2026 - 4 Volumes - Weekly Shounen Jump)
Uns bons anos atrás, passou pelas páginas da maior revista de mangás do Japão o que considero um dos maiores desastres de sua história recente. Era "Shadow Eliminators", história de porradinha com um certo apelo para o público fujoshi, que tinha alguns dos temas mais absurdamente rasos e derivativos já vistos, ritmo absolutamente atropelado em uma experiência transcendental típica da era Pós-TikTok e escrita que por vezes lembrava um Naruto de baixo orçamento e em outras espelhava aquilo que as fanfics do porão do Spirit têm a oferecer. O estrago na época foi tamanho que o autor, em momento que se tornou infame dentro da comunidade da revista, chegou a pedir desculpas pela baixíssima qualidade do primeiro capítulo da obra.
Acima, a imagem do comentário. Em tradução livre: “O capítulo 1 ficou difícil de ler, e eu errei na organização das páginas. É vergonhoso, e não tenho desculpas. Vou fazer melhor.”
O que o mangá naquela época tinha pra chamar de qualidade era sua arte e seus designs de personagem competentes, não muito mais que isso. Por isso, ao retornar anos depois com Kinato's Magic, o mangá aqui analisado, o autor Kento Amemiya tinha muito o que provar. Ele veio com uma proposta simples e divertida, trazendo protagonista com poderes de cura e uma vibe relaxada e humorística parecida com o que víamos no início de Fairy Tail, que foi a principal comparação que fizeram com a obra durante sua publicação.
Bem, eu analisei esse mangá semanalmente lá nas minhas Threads™, então, quem me conhece de lá sabe o que acabou acontecendo. Kinato começou bem e, apesar de nunca ter decolado muito em qualidades individuais, conseguiu em seus arcos finais encontrar no ecchi descompromissado e no romance surpreendentemente bem desenvolvido algumas qualidades que talvez nem mesmo o autor sabia que tinha. Ao mesmo tempo, denunciou que alguns vícios da obra anterior ainda permanecem, especialmente com um arco intermediário MUITO fraco e que parece direto de algo que os eliminadores sombrios fariam.
Sinceramente, eu nem sou o maior dos defensores de Kinato, mas vendo o tipo de discurso que vem se proliferando sobre o mangá, principalmente nos lados estadunidenses da internet, de repente me torno um EFUSIVO defensor do autor. É uma galera seleta tentando imputar na obra suposta misoginia que simplesmente não existe e não se sustenta em uma leitura que seja minimamente sincera. Pra mim, sintoma de um puritanismo preocupado com a repetição de valores considerados por muitos "corretos" dentro da ficção e que, mesmo sem perceber, mais se aproxima do conservadorismo e da censura do que gostariam de acreditar. O resultado final desse tipo de discurso a gente viu diversas vezes durante a história, e isso não é uma acusação, apenas um convite a refletir. Mas, menos sobre isso e mais sobre gibi barato!
Kinato's Magic é uma evolução e mostra que Kento Amemiya encontra cada vez mais o que funciona dentro de sua arte. Agora, basta um aprimoramento de fatores técnicos e talvez melhor direcionamento por parte de editores ou algo do tipo. Até onde consigo saber, tá no caminho certo.
Drawn to the Fire (2026 - 2 Volumes - Weekly Shounen Jump)
Mais um cancelado do pulo semanal, e mais um mangá de esporte que fica pelo caminho dentro da revista. A maldição continua viva e parece cada vez mais difícil de escapar, mesmo pra quem tenta colocar poderzinhos ou se inspirar em maiores sucessos. E mesmo assim temos autores malucos apostando em mangás de CORRIDA, e nessa economia...
Haja coragem, né? Eu ultimamente não tô tendo nem pra sair de casa no frio.
Voltando a Drawn to the Fire, ele foi um mangá de basquete até que interessante. O desenvolvimento de personagem do autor é relativamente acima da média, e seu uso de metáforas, exemplificado pelo próprio título, foi bem gostosinho nas vezes em que nelas foi apostado. Eu leria algo nessa linha novamente, e penso que só o que faltou mesmo foi saber fazer melhor as partidas de basquete em si, que quando ganhavam foco deixavam claro um abismo entre sua qualidade e a de outros aspectos desse gibizinho.
Assim como Kinato, o mangá acabou gerando uma polêmica após o seu lançamento. Entretanto, no caso de Drawn to the Fire ela é bem mais séria e ganhou repercussão lá no Japão. Na imagem acima, vocês podem ver uma comparação direta de um quadro do mangá com "Ahiru no Sora", sucesso absoluto da revista concorrente. Posteriormente, foram encontrados diversos pedaços de Drawn to the Fire com semelhanças assustadoras para com a obra da Magazine, deixando difícil para o autor afirmar que era apenas coincidência. Não sabemos as implicações, mas pode inclusive ter pegado mal com a própria administração da Shounen Jump ter um autor exposto dessa forma.
Não dava pra ser só mais um cancelado de esporte com alguns pontos positivos, né? Tem que ter emoção. Gostamos de emoção!
Life-man (2025-2026 - 4 Volumes - Jump+)
Life-man ocupou um espaço delicioso nas minhas leituras semanais durante sua publicação. É um mangá calminho e excêntrico sobre o próprio "Life-man", um herói mudo (apesar do mangá eventualmente dar a entender que apenas o leitor não consegue entender o que ele diz) que auxilia sua cidade em casos cotidianos e com isso cria uma enorme rede de amizades, desde interesses amorosos até mentores e discípulos.
O capítulo médio de Life-man podia ir desde um passeio pra comer lámen até um encontro fofinho e cheio de reviravoltas. A obra banca muito bem seu clima pacato, com humor sóbrio e forte presença de um narrador vocal que deixa tudo com uma vibe clássica que me apetece demais.
Eu classificaria esse gibi, de forma simples, como um mangá muito divertido que não vi e nem vejo ninguém comentando. Pra quem curte Slice-of-Life bem calmo e com bastante comédia excêntrica, recomendação certa.
Hope You're Happy, Lemon! (2023-2026 - 11 Volumes - Jump+)
E vamos ao único não cancelado da lista, para provar que eu também leio ficções comercialmente viáveis, ao contrário do que a oposição vem pregando!
Na época que Lemon foi lançado, eu criei na minha cabeça uma competição dele com outro romance que saía ao mesmo tempo e na mesma plataforma, o "Blooming Love", que inclusive tive chance de analisar aqui no blog uns meses atrás. Pra mim, enquanto Blooming Love representava um romance excessivamente simples e feijão com arroz, que apostava em uma seriedade e no que considero mais chato dentro do realismo que pragueja alguns dos mangás atuais do gênero, Lemon representava a escrita criativa e aloprada, sem medo de colocar suas ideias mais malucas pra jogo e as fazer coexistir com os elementos extremamente humanos da escrita. Lemon provava que, no meio de um monte de gente tentando jogar seguro, ainda existia espaço pros romances malucos e divertidamente caóticos dentro da Jump+.
Ainda hoje, acho que a comparação, mesmo que um pouco dura demais com o Blooming Love, que nem é tão ruim assim, representa muito bem do que gosto nesse mangá. Ele é autêntico, é divertido, é espontâneo, é maluco e absurdo, e o mais incrível é que tudo isso pode acontecer sem largar o caráter verossímil que diálogos sinceros dentro da obra possuem.
Acho bem triste que não ganhou sua chance de brilhar com uma publicação brasileira, e espero que a possibilidade de uma adaptação animada mude esse cenário. As pessoas merecem conhecer a Lemon e a Natsumin.
West Tokyo Metal Bros (2026 - 3 Volumes - Jump+)
Não estou acompanhando todos os lançamentos na Jump+ esse ano, mas quando uma obra da plataforma acaba sendo cancelada, frequentemente minha curiosidade me vence e acabo correndo atrás da leitura. Foi o que aconteceu aqui, nesse mangá de comédia e Heavy Metal e zona rural e tudo mais que você imagina.
Esse mangá é divertido e tem estética própria e bons personagens, conseguiu inclusive me fazer rir alto em algumas sequências. Só que ele infelizmente não teve nem muito espaço pra passar disso, a gente vê que o autor apresenta os colegas de banda do protagonista e nem sequer tem tempo de desenvolver algo sobre eles. O cancelamento em três volumes foi cruel demais e tornou a obra uma casca do que poderia ter sido.
Também achei incrível que o autor aproveitou o clima de cancelamento e de que não tava ligando pra nada pra nos proporcionar palavrões em pleno Mangá Plus! Raríssimo nessa economia...
Enfim, eu acho que claramente a experiência de ler de uma vez muda muito a forma como enxergo a obra, e deixa muito mais claro que de fato não deu tempo de fazer porcaria nenhuma. Adicionalmente, já entrar sabendo que é uma obra cancelada coloca, mesmo que no subconsciente, a expectativa lá pra baixo, o que talvez possa ter feito que minha postura seja um pouco menos crítica. Mas até que penso que não tanto, também sou bem generoso com vários cancelados da Jump principal.
Espero que o autor volte melhor no futuro e que possa fazer muito mais referências de Dragon Ball e Sepultura!!!
E finalizo aqui mais um apanhado de pequenas ponderações sobre minhas leituras do mês! Acabei escrevendo mais do que planejava, acredito que faz parte.
Aproveito para convidar os leitores que se interessam pelo que escrevo pra conhecer os contos autorais que tenho publicado aqui no blog recentemente. São obras nas quais tô colocando meu coração e trabalhando muitos temas que adoro. Até agora, já lancei "Paixão Flamejante" e "Perfeição Dourada", e tenho um terceiro em produção que deve estar disponível em breve. Vou deixar os links embaixo, e gostaria muito que quem lesse me deixasse comentários ou entrasse em contato pra compartilhar experiências sobre o que entendeu da leitura e do que mais gostou e menos gostou. Valeu, e até a próxima!
Paixão Flamejante (O encontro hipnotizante com tudo que você precisa): Clique aqui!!!
Perfeição Dourada (Um estado de espírito no qual não preciso de você e nem de ninguém): Clique aqui!!!
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